A
insuficiência de investimentos em obras de infra-estrutura
vem mantendo o Brasil na armadilha do baixo crescimento econômico.
Apesar da ganância tributária, o setor público
permanece incapaz de financiar a construção, manutenção
e ampliação de portos, ferrovias, saneamento e rodovias.
A
participação do capital privado revela-se o melhor
caminho para retomar a expansão em ritmo significativo
dos investimentos em infra-estrutura. Com esse objetivo, o governo
federal formulou a proposta das Parcerias Público-Privadas
– PPPs, a fim de fomentar a economia. A intenção
é fazer com que o capital privado realize investimentos
com prazo de maturação mais dilatado e riscos mais
elevados.
As
PPPs diferenciam-se das concessões, nas quais o risco é
inteiramente transferido para as empresas privadas, bem como das
obras públicas, em que o mesmo é assumido integralmente
pelo Estado. Há uma partilha de riscos mais equilibrada.
O Fundo Garantidor de Parcerias Público-Privadas foi estabelecido
pela Lei nº 11.079/2004. Posteriormente, o Tesouro fixou
regras para o registro contábil dos projetos de PPPs.
Os
setores público e privado têm características
e objetivos próprios, exclusivos e diferenciadores. Enquanto
o primeiro possui objetivos primordialmente econômicos,
os objetivos finais do setor público são basicamente
sociais. Há também a tensão entre os valores
de flexibilidade e accountability (responsabilização)
e os diferentes pesos atribuídos a esses valores entre
os setores público e privado, claramente identificáveis
em termos do tratamento de temas como conflitos de interesse,
atividades políticas, normas e procedimentos, pessoal e
processos de tomada de decisão.
Para
o advogado André Antunes Soares de Camargo - LLM em Direito
Societário e Contratual pela Universidade da Califórnia,
Davis e coordenador adjunto do IbmecLAW (Centro de Estudos em
Direito do Ibmec São Paulo) -, a idéia das PPPs
alinha-se à tendência mundial de flexibilização
na contratação de bens e serviços por parte
da administração pública, após o esgotamento
de praticamente todos os demais modelos tradicionais (privatização,
licitação, concessão etc.). Atividades originalmente
exploradas pelo Estado passam a ter seus frutos igualmente desfrutados
pelos particulares, os quais se valerão de sua eficiência
e experiência no ramo escolhido para objeto da PPP. Outrossim,
as PPPs constituem um passo fundamental para a atração
de investimentos de longo prazo para projetos de infra-estrutura,
saúde, segurança pública e educação
os quais o Estado, com suas próprias forças e orçamento,
não pode implementar com a devida eficiência, abrangência
e qualidade. “Existem muitos investidores céticos
com relação ao sucesso das PPPs. A viabilidade prática
dessa iniciativa requer uma atenção especial ao
investidor convidado a participar de uma nova forma de parceria
com o Estado brasileiro”, assinala.
Para
a professora e pesquisadora do Departamento de Administração
da UnB, Janann Joslin, a parceria público-privada (PPP)
é concebida como um acordo firmado entre a administração
pública e entes privados, que estabelece vínculo
jurídico entre eles, visando à implantação
ou gestão, no todo ou em parte, de serviços, empreendimentos
e atividades de interesse público. Segundo ela, as PPPs
são arranjos interorganizacionais que envolvem também
entes do terceiro setor. Podem ser incluídas no conceito
de PPP parcerias com naturezas distintas e atores diferenciados.
É possível encontrar diversos tipos de PPP, envolvendo
governos federais, estaduais e municipais, universidades, escolas
e empresas privadas na realização de projetos que
vão desde o apoio a programas de escolas públicas
até a construção e operação
de hospitais ou grandes projetos de infra-estrutura.
As
Parcerias Público-Privadas no Brasil são do tipo
PFIs - iniciativas de financiamento privado Private Finance Iniciatives.
Constituem relações contratuais de longo prazo nas
quais, em geral, o setor privado investe em estruturas para a
prestação do serviço público. Entretanto,
é possível encontrar modelos de PFI bastante diferenciados
quanto à estrutura, à gestão e ao modelo
de licitação. Os argumentos a favor de sua utilização
situam-se, em geral, em torno de três pontos. O primeiro
refere-se à possibilidade de o setor privado transferir
para o setor público características estimuladoras
da inovação e habilidades gerenciais que, em conjunto,
incorporariam um nível mais elevado de eficiência
nos serviços públicos.
O
segundo argumento é que sendo utilizados recursos de entes
privados para a realização de determinados serviços
públicos, ao setor público restariam recursos fiscais
para investimentos em outras áreas. Esse segundo argumento
tende a ignorar o dilema da determinação sobre o
retorno do investimento justo do parceiro privado versus taxas
justas pagas pelos usuários do serviço. O terceiro
argumento focaliza a questão da distribuição
de riscos entre as partes, buscando alocá-los à
parte que tem os menores custos para suportá-los. “Há
lições relevantes a serem aprendidas com as experiências
de privatização e concessão, especificamente
ao redor das dificuldades relacionadas à avaliação
de risco e à determinação de preço
satisfatório tanto aos propósitos públicos
quanto aos privados”, observa a pesquisadora.
Etanol
Recentemente,
o presidente Lula fez um apelo aos empresários para que
invistam nas Parcerias Público-Privadas. As PPPs também
podem atrair capitais estrangeiros. Ao apelar ao Congresso Nacional
em prol da aprovação do PAC – Programa de
Aceleração do Crescimento, Lula lembrou que o mesmo
confere segurança jurídica necessária para
o avanço das parcerias público-privadas.
Ao
versar sobre os assuntos relativos ao combustível debatidos
durante a visita do presidente americano, George W. Bush, ao Brasil
e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos Estados Unidos
em março deste ano, o coordenador do setor de Energia do
Departamento de Estado norte-americano, Greg Manuel, informou
recentemente que os EUA desejam firmar parcerias público-privadas
com o Brasil por meio, por exemplo, de um projeto conjunto realizado
em um país do Caribe ou da América Central. O representante
dos EUA foi um dos participantes do evento “Etanol, Biodiesel
e a Revolução dos Biocombustíveis”,
realizado no Brazil Institute do Centro de Pesquisas Políticas
Woodrow Wilson Center, de Washington.
Segundo
o representante americano, entre esses temas estão a cooperação
em áreas de pesquisa e desenvolvimento, a transferência
de recursos do etanol para outros países e a necessidade
de criar um mercado global para o produto. Brasil e Estados Unidos
respondem juntos por 70% do mercado mundial de etanol. O produto
americano é produzido a partir de milho, ao passo que o
brasileiro é feito de cana de açúcar. A prioridade
é apostar na criação de um mercado de commodity
internacional. Para que isso aconteça, é preciso
criar padrões comuns para o etanol. Ambos os países
já estão atuando nesse sentido.
Rodovias
Em
janeiro, o governo anunciou a decisão de suspender o processo
de concessão de sete trechos de estradas federais para
avaliar com mais atenção a taxa de retorno prevista
para os investimentos feitos pelo setor privado. A notícia
foi mal recebida pelo setor privado. Representantes das empresas
argumentam que uma concorrência competitiva garantirá
um preço "adequado" para os pedágios e
que os usuários têm prejuízos ao trafegar
em estradas mal cuidadas. A Abdib apresentou a Lula proposta de
recuperação de um total de 15 mil a 20 mil quilômetros
de rodovias até 2010 por meio de concessões e parcerias
público-privadas.
Setor
aéreo
Especialistas
em mercado defendem que a liberalização pela qual
o setor aéreo passou no Brasil não foi suficiente:
Faltou flexibilizar as tarifas aeroportuárias, modernizar
a gestão da Infraero, incluir a iniciativa privada na administração
de aeroportos e derrubar restrições regulatórias.
Alguns
acreditam que o real problema do setor aéreo é o
chamado "vazio regulatório", ou seja, a falta
tanto de um órgão que seja efetivamente responsável
pela construção de políticas públicas
quanto de uma legislação atualizada para o setor.
São cogitadas uma eventual privatização da
Infraero ou a abertura maior do setor para a iniciativa privada,
bem como a realização de PPPs.
Especialistas
também sugerem a abertura de parte do capital da Infraero
para acionistas, a fim de aumentar a governança corporativa
ou permitir a administração de novos aeroportos
pela iniciativa privada.
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