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Antes incensada como um valor coletivo no mundo dos negócios, a esperteza na obtenção de vantagens perde terreno. Criada em 2006 pelas organizações signatárias do Pacto Empresarial pela Integridade e Contra a Corrupção, a campanha “Empresa Limpa” tem por objetivo mobilizar a sociedade demonstrando a forma como a corrupção prejudica o desenvolvimento do país e divulgando preceitos de boa prática empresarial, resguardando os princípios de competitividade e livre concorrência.
O referido pacto significa que, independentemente dos processos burocráticos legais, como licitações públicas, as empresas signatárias se comprometem a desenvolver mecanismos para apurar e erradicar as práticas antiéticas em suas cadeias produtivas como estratégias para obtenção de resultados econômicos (lucros). Entre as práticas antiéticas estão o suborno, a sonegação e a obtenção de vantagens em regulamentos que afetem a área de atuação da organização. “Surge na sociedade civil um grupo de empresas catalisadoras de uma nova cultura empresarial de radical e ininterrupto combate à corrupção em todos os níveis”, afirmam os fundadores Oded Grajew, Ricardo Young Silva, Carlos Eduardo Lins da Silva, Giovanni Quaglia e Lucien Muñoz no manifesto de lançamento da iniciativa. O movimento está exigindo do empresariado a apresentação do registro de contribuições de campanhas eleitorais e propondo-se a colaborar com os poderes públicos nas investigações de irregularidades. Para seus idealizadores, a sociedade precisa diminuir a tolerância com agentes corruptos.
Segundo a pesquisa “Reputação e Recuperação de Imagem”, realizada em 2006 pela agência global de relações públicas Weber Sandwick em 11 países, a atitude ética passa a ser cada vez mais valorizada para preservar a boa imagem de uma corporação e uma ação antiética pode afetar irremediavelmente a reputação. Construir uma boa reputação no mercado não é tão difícil, mas – uma vez perdida – recuperá-la é mais complicado. Uma boa reputação empresarial requer muita comunicação, com qualidade. A sociedade também está disposta a debater a legalização da atividade lobista, disciplinando o modo como as pressões dos setores organizados da sociedade podem ser exercidas dentro de parâmetros legítimos e não por meio de expedientes nebulosos e corruptores.
A ONG Transparência Internacional dedica-se a apontar índices de corrupção e sugerir políticas de combate a esse crônico problema que aflige muitos países. Seu estudo intitulado “Barômetro da Corrupção Global 2006” indica que a propina “remunera” os serviços públicos na América Latina e na África. A ONG Transparência Brasil, por sua vez, defende a criação de uma burocracia de estado mais competente com a redução drástica dos cargos comissionados, medida considerada essencial para restringir as possibilidades de corrupção na máquina pública. A CPI dos Correios sugeriu que os mesmos sejam limitados a 1% do total de cargos em cada órgão público. Também propôs que os gastos com publicidade da União, estados e municípios limitem-se a respectivamente 0,2%, 0,5% e 1% das receitas correntes líquidas. Outra proposição foi a formação de um sistema nacional de combate à corrupção, coordenado pelo Tribunal de Contas da União, integrando ainda o Ministério Público, Banco Central, Controladoria Geral da União, Receita Federal, Polícia Federal, Comissão de Valores Mobiliários e Secretaria da Previdência Complementar.
“Quanto mais houver obediência espontânea às regras (comportamentos éticos), menos tempo e dinheiro serão desviados para a defesa de eventuais comportamentos não éticos e mais recursos podem ser aplicados nas atividades de produção e de trocas, aumentando o produto social e o bem-estar econômico”, constata o economista André Franco Montoro Filho, ao analisar os custos da corrupção para o país. Para ele, a repetida impunidade gera desânimo em quem cumpre suas obrigações e estimula a atividades ilegais. “É preciso dar um basta no perverso processo de desagregação social gerado pela falta de ética nas relações sociais”, assinala. O professor da FGV Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque afirma que “é preciso ‘desprofissionalizar’ a política e desmantelar as organizações criminosas incrustadas no governo”. Segundo ele, a reforma político-eleitoral é demanda fundamental para moralizar a administração pública brasileira: “A política precisa de um tratamento de choque no Brasil para estancar o caudaloso fluxo de corrupção e desmandos na vida pública do país”, afirma. Ele também defende a radical redução dos cargos em comissão de livre provimento na administração pública a fim de fortalecer a formação de uma burocracia administrativa profissional e estável, entre outras medidas.
Para o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, “a corrupção nomeia ineptos, desvia recursos, eleva custos e impede que o dinheiro chegue aos necessitados”. Já o cientista social Vinicius Torres Freire questiona: quantos exames pré-natais e quantas pesquisas científicas podem ser feitos com o dinheiro a funcionários que recebem além do limite legal? “A desconversa maior e séria é sobre a origem e o destino do dinheiro arrecadado via impostos: como tal divisão de recursos é politicamente determinada, quem recebe o quê e de quem?” Ao anunciar os resultados de uma pesquisa mundial sobre as inquietações dos executivos, por ocasião do Fórum Econômico Mundial de 2006 na Suíça, o presidente da consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC), Samuel DiPiazza, observou que o maior nível de preocupação dos executivos com a corrupção aparece no Brasil e na Rússia. Segundo o levantamento, 67% dos empresários do mundo em desenvolvimento apontam a corrupção como problema principal ou muito significativo, índice que nas economias desenvolvidas cai para 32%.
O prefeito do Rio de Janeiro e economista Cesar Maia sugere a criação de um conceito novo – o da cleptocracia – para designar a corrupção instituída como forma de governo ou modo de produção política. Para ele, “faz-se urgente a construção de um contra-sistema de controle interno, como há em vários países, para minimizar as redes mafiolíticas” formadas, segundo Maia, pela sofisticação das velhas práticas patrimonialistas, clientelistas e assistencialistas, bem como pelo financiamento das máquinas políticas por meios escusos.
Por fim, recente pesquisa da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) indica que, se conseguisse reduzir os índices de corrupção interna a patamares equivalentes aos do Chile – a nação menos corrupta da América Latina – o Brasil elevaria seu nível de riqueza em 23%. As conclusões apontam ainda que o custo médio anual da corrupção para o país é de US$ 10,7 bilhões ou aproximadamente R$ 25 bilhões, equivalente a 1,35% do PIB. A burocracia é tida como um dos principais fatores causadores de corrupção. A solução passaria por diminuir o número de funcionários públicos e remunerar os remanescentes com saláros de mercado, bem como a adoção de estratégias mais específicas e práticas de combate à corrupção, com reformas econômicas e mudanças institucionais: maior controle sobre o gasto público, obrigatoriedade de execução do orçamento público, incremento da transparência das compras governamentais por meios eletrônicos, simplificação do sistema tributário e fortalecimento das agências reguladoras. Novas regras para nomeações para cargos de confiança também são preconizadas pela Fiesp.
O especialista da ONU em combate à corrupção Stuart Gilman propõe a criação de uma corte anticorrupção. A proposta em discussão concebe um tribunal específico para julgar crimes contra a administração pública e atos de improbidade administrativa, com regras processuais próprias, com celeridade e de forma terminativa.

Saiba mais:
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 www.fdc.org.br/pt/sobre_fdc/dinamica.asp?CodEspaco=0&CodMenu=748

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 Revista Digital Ágora Administração - Ano I - Número 03 - 2º Trimestre de 2007
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