Adm. Sérgio Pereira Lobo

         O conceito da sustentabilidade vem movimentando consideravelmente a comunidade internacional e propicia importante reflexão no transcurso do Dia do Administrador, em 9 de setembro, que marca a regulamentação da profissão há 42 anos pela Lei Federal nº 4.769.
         No contexto de agravamento da escassez e do esgotamento dos recursos naturais, simultâneo a sucessivas e crônicas crises econômicas, cabe à humanidade encontrar novas formas de atender às suas necessidades sem comprometer a sobrevivência do planeta e das gerações futuras. O descaso com o meio ambiente acaba por se traduzir em significativas perdas, com prejuízos generalizados. Por essa razão, muitas organizações estão incluindo a sustentabilidade em suas estratégias de modo a diminuir o impacto da atividade econômica sobre a natureza. A inovação sustentável combina a geração de riqueza com preservação ambiental.
         Estudos científicos comprovam as vantagens obtidas por empresas que adotam a sustentabilidade em suas práticas gerenciais e operacionais. Os modelos de gestão contemporâneos devem levar em conta necessariamente o atendimento às necessidades básicas dos seres humanos, a manutenção do equilíbrio dos ecossistemas, a prevenção da degradação ambiental, o fim dos desperdícios e a eliminação da injustiça social.
         A ecoeficiência consiste em manter os níveis de produção utilizando menos recursos, fazendo menos emissões e com menos desperdício. Para obter esses resultados, a empresa ecoeficiente utiliza matéria-prima alternativa e tecnologias mais eficientes e limpas, bem como empenha-se em envolver e comprometer as pessoas com novos hábitos. Na empresa que se organiza para adotar práticas sustentáveis, não pode faltar a prestação de contas (accountability). As três dimensões da sustentabilidade - social, econômica e ambiental – são consideradas no conceito de triple bottom line, ou seja, uma base de medidas e sistemas de gerenciamento integrados com foco no valor econômico, social e ambiental adicionado ou subtraído.
         As organizações assumem a responsabilidade pela eliminação dos desperdícios, redução da geração de resíduos e sua adequada destinação no contexto do processo produtivo e distributivo. Passam a merecer atenção especial os impactos das atividades de extração, utilização e transformação de recursos, fabricação e consumo. É preciso aprender a REDUZIR a quantidade de lixo, a REUTILIZAR os objetos e a RECICLAR os materiais. Emerge também o conceito de produção mais limpa, uma estratégia ambiental de prevenção da geração excessiva de resíduos com foco nos produtos e processos, otimizando o emprego de matéria-prima.

         Riscos e oportunidades
         Ao contrário do que pode parecer, a sustentabilidade constitui uma oportunidade para negócios e de incremento das economias locais, gerando prosperidade e maior poder de consumo das comunidades. Entre os ganhos estão a melhora da reputação e o fortalecimento da marca, a redução de custos, o aumento das receitas e da produtividade, com agregação de valor aos produtos e serviços. Também o clima organizacional costuma se beneficiar com um salto de qualidade, a partir do envolvimento das pessoas que se sentem parte integrante de uma equipe e responsáveis não só pelos resultados, mas também pela redução dos impactos ambientais.
         A sustentabilidade contribui para a criação de modelos alternativos de produção e de negócios, própria da nova era da Administração, que privilegia o talento, a criatividade e a inovação. Também facilita o acesso ao capital para empresas que desejam crescer, considerando as políticas de preferências adotadas por instituições financiadoras e investidores. Empresas que investem em certificações para melhorar sua performance gerencial, passam por uma profunda revisão de seus procedimentos, com resultados na gestão, redução de custos e incremento da produtividade. Tais certificações são renovadas em auditorias periódicas.
         O risco não pode ser eliminado, pois é parte dos negócios. Problemas ambientais e sociais podem afetar seriamente o desempenho financeiro. Empresas que praticam a governança corporativa em sua gestão, adotando a transparência e promovendo o engajamento de seus diversos públicos de relacionamento (stakeholders), reduzem sensivelmente seus custos e riscos operacionais e de produção. Engajar stakeholders significa informá-los honesta e periodicamente, assim como consultá-los sobre questões de sustentabilidade enfrentadas pela organização, por meio de diálogo aberto, relatórios públicos e inclusão nos processos decisórios. Um relatório que demonstre os esforços em prol da sustentabilidade é valorizado por organizações internacionais, como a Global Reporting Initiative (GRI). No entanto, riscos e oportunidades da sustentabilidade só podem ser geridos quanto mais a empresa integrá-los em sua estratégia, desenvolvendo métodos para avaliar o retorno financeiro e o impacto em seus negócios.

         Índice de Sustentabilidade Empresarial
         Com o aprimoramento do mercado de capitais a nível mundial, os investidores iniciaram tendência de aplicarem seus recursos em empresas socialmente responsáveis, sustentáveis e rentáveis. Estas aplicações são os chamados investimentos socialmente responsáveis, que indicam as empresas sustentáveis que agregam valor para o acionista a longo prazo, por estarem mais preparadas para as oscilações econômicas, sociais e ambientais.
         A procura por empresas com estas características vem se fortalecendo, e atualmente utiliza diversos indicadores financeiros no mercado internacional. Em nosso país esta tendência tem ritmo crescente, com boas perspectivas de evolução e consolidação.
         A Bolsa de Valores de São Paulo – BOVESPA, juntamente com várias outras instituições também preocupadas com o assunto, criou um índice de ações para servir de referencial para investimentos socialmente responsáveis. O ISE pretende refletir o retorno total aos investidores de uma carteira teórica composta por ações de empresas reconhecidamente comprometidas com a responsabilidade social, além de atuar como difusor das boas práticas no meio empresarial.

         Consumidores
         Finalmente, a ação dos consumidores por meio de um comportamento de consumo consciente é considerada fundamental para impulsionar a sustentabilidade. Sensibilizados para o tema, eles detêm o poder da decisão de compra. Desde a adoção de critérios de sustentabilidade para aquisição de produtos e serviços até a devolução de embalagens vazias aos fabricantes - no caso de empresas locais com as quais mantêm relações constantes de consumo, por exemplo – são hábitos simples que fazem a diferença. Ser sustentável é uma postura ética. É incluir, cooperar, comungar e mudar sem destruir.
         A sustentabilidade só pode ser bem-sucedida se os requisitos tradicionais da gestão empresarial forem contemplados. Administradores necessitam estar preparados para a gestão sustentável como objetivo de longo prazo, que exige a sua participação consciente de sua responsabilidade profissional e social. Somente a aliança dos vários segmentos da sociedade e setores da economia pode gerar o comprometimento em torno da sustentabilidade nos âmbitos local, nacional e global. Para obter êxito, tal processo não pode ocorrer de forma isolada: deve estar integrado a uma distribuição mais igualitária dos benefícios da atividade econômica e à elevação dos níveis educacional, cultural, de saúde e segurança das populações de maneira que todos possam compartilhar com qualidade de vida os benefícios do desenvolvimento e da riqueza que todos geramos. O futuro será grato.

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Sérgio Pereira Lobo é presidente do Conselho Regional de Administração do Paraná